18 de set de 2012

Sombras, mapas, nuvens


Pesquisando na Internet vi que tem muitas imagens dessas, aparecendo a sombra do carro do Google Street View,  mas topei com essa por acaso, pesquisando sobre Hanley Swan, vilarejo inglês que foi a base para o ficcional Black Swan, do livro Black Swan Green, de David Mitchell.
Emendei na leitura desse após Cloud Atlas (por enquanto só em inglês), do mesmo autor, que foi o primeiro livro que li no Kindle do qual senti falta da sensação do papel impresso, do cheiro, do peso de quanto falta e quanto já foi lido.
Talvez porque tenha sido o melhor livro que li no Kindle até agora, e um dos melhores dos últimos tempos em qualquer suporte.
Recomendo, deve sair logo a tradução por causa do filme, que estreia em dezembro no Brasil com o título (ruim) de A Viagem. Tom Hanks, Halle Berry, Hugh Grant, Susan Sarandon, alguns em vários papéis, e direção dos Irmãos Wachowski, de Matrix (qualquer googlada traz bastante material sobre o filme, eu que odeio trailers não vou ficar linkando).
Também não gosto muito de contar a história dos livros, mas dá pra dizer que é um romance com seis histórias diferentes, com estilos diferentes (diários, cartas, policial, memórias, depoimentos, ficção científica etc.) contadas em sequência, passadas em várias épocas (fim do século XIX, anos 30, anos 70, atualidade, futuro e futuro depois desse futuro) e lugares (Pacífico Sul, Bélgica, Califórnia, Inglaterra, Sudeste Asiático e Havaí).
Os pontos de contato entre as histórias podem ser comparados ao retorno de motivos musicais em uma peça sinfônica. Além disso, personagens de uma história do romance aparecem lendo outra.
No fim o conjunto faz todo o sentido e, apesar de dizendo assim não parecer, não é uma leitura difícil, pra quem leu seu García Márquez e/ou Italo Calvino (influências do autor, ao lado de Milan Kundera. Bem acompanhado).
O título original (Cloud Atlas) refere-se às diversas manifestações da natureza humana, que é sempre a mesma ao longo da História, porém com infinitas variações. 
Um dos temas do livro é a dominação do homem sobre o homem e de grupos sobre homens/grupos, o que garante algumas cenas e climas violentos e às vezes muito opressivos, mas a mensagem geral é pacífica e otimista, achei eu.
Tem um quê de Guerra e Paz e mais não digo.
Só lendo mesmo.

19 de jul de 2012

Tantos relatos, tantas perguntas.

Apesar do charme inegável e da tradição dos Jogos Olímpicos, como tudo o mais a sustentação do sonho depende dos anônimos que pegam no pesado, conforme mostra (em inglês) o site (recomendo) Sociological Images.




A área marcada na primeira foto, em zoom na segunda, indica os trailers provisórios onde os trabalhadores temporários, na maioria migrantes, estão acomodados (?).
"As queixas incluem:

- superlotação;
- insuficiência de sanitários, consequentemente imundos;
- goteiras que os próprios trabalhadores devem consertar, ou ´viver desse jeito mesmo´;
- água parada ao redor dos trailers obrigando os trabalhadores a fazerem passagens com pedras;
- mulheres colocadas para viverem em trailers com homens que não conhecem.
 Segundo o jornal Daily Mail os empregados assinaram contratos que os impedem de falar com a imprensa e família e amigos são barrados do local por ´razões de segurança´." (tradução nossa)
     

A cidade não para, a cidade só cresce

Dos blogs Rio de Fotos, Foi um RIO que passou e Saudades do Rio, fotos da abertura da Avenida Presidente Vargas, com a marcação do local da Igreja de São Pedro dos Clérigos, "único e último exemplar no Rio de Janeiro de igreja barroca de nave redonda".





18 de jul de 2012

Laia ladaia

O mais incrível é que a versão original do disco Transa (1972) parece às vezes mais moderna que a outra, já no século XXI.
A gente não sabe dele, mesmo.
Mas ambas as versões são de apertar o repeat, de novo, de novo, e de novo...

10 de jul de 2012

É o mar

http://hugheshunter5.deviantart.com/art/Marianne-Dashwood-169495933

Sempre penso em um paralelo ou semelhança entre as obras de Paulinho da Viola e Jane Austen, que, a partir de um universo aparentemente limitado, criam textos e canções de profundo e duradouro impacto nos leitores e ouvintes.

Assim, foi uma combinação feliz assistir a um show de Paulinho no sábado e terminar a releitura de Razão e Sentimento, na edição comemorativa de 200 anos do livro – com tradução magnífica de Ivo Barroso  e ilustrações antigas há poucas horas.

Dessa vez a associação veio por conta dos seguintes trechos, sobre a relação de nossas convicções e opiniões firmes de juventude com as transformações de pensamentos frente às incertezas e mudanças que a vida leva e traz (spoiler ligeiro pra quem não leu o livro!):

"Mariane Dashwood havia nascido para um extraordinário destino. Nascera para descobrir a falsidade de suas próprias opiniões e para contrariar, pela sua conduta, suas máximas favoritas."
"Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar"

18 de jun de 2012

Pelé

Disponível para download em pdf uma miniedição, espécie de número zero, de uma nova revista americana sobre futebol (como diria o Gois, soccer é o ...). 
A edição brinde da Howler, que será lançada valendo no fim de junho em um esquema crowdfunding é toda sobre o clássico Brasil x Argentina.
Muita coisa pra americano ver, mas imagens bonitas, uma divertida descrição de cena de faroeste com Pelé e Maradona e  vídeos que rodam no pdf com cenas das Copas de 82/90 e o quarto gol da Seleção na final de 70.
Sobre o lance, o jornalista Graham Parker escreve, em um texto sobre a busca do novo Maradona e do novo Pelé (tradução nossa):
Meu momento Pelé favorito não é uma bicicleta, um chute do meio–campo e nem mesmo a celebrada finta no goleiro uruguaio na Copa de 70. É um momento da mesma Copa, parte de um momento maior que é celebrado por si – o quarto gol brasileiro na final contra a Itália.
Com o jogo transformado em um desfile e os brasileiros relaxados, jogando por música, uma linda jogada coletiva termina com Carlos Alberto mandando a bola para o gol com uma chicotada enfática. A aparentemente modesta contribuição de Pelé é o passe final – recebendo a bola na entrada da área, e girando em um movimento lânguido, voltando o corpo para a direita e despretensiosamente tocando a bola de lado para o chute final do jogador que chegava – e então caminhando um ou dois passos após o passe como se para ver melhor o resultado.
Esses poucos passos de Pelé me pegam toda vez.
De qualquer ângulo que o gol é mostrado, a câmera se afasta dele nesse momento, em busca da bola – mas Pelé passeia, porque sabe aonde ela está indo. Por alguma razão, esse movimento sempre me traz à cabeça um curador organizando uma coleção de renome, sabendo que determinada peça irá aparecer perfeita, exatamente naquele lugar, e então se inclinando um pouco para confirmar o que já era visível.
Com tais momentos de gênio, o “próximo Pelé” terá que ser não só um mestre do futebol, mas mudar o modo como vemos o jogo.

1 de jun de 2012

FAQ sem resposta


Trecho de discurso para formandos de Jacqueline Novogratz [página no TED], fundadora do Acumen Fund, organização que tem uma abordagem empresarial no combate à pobreza:
Viramos uma sociedade que busca a gratificação imediata. Queremos respostas simples, caminhos certos para o sucesso... A vida não funciona assim. Ao invés de procurar respostas o tempo todo, desejo que vocês se sintam bem vivendo as perguntas.
Inspirado, ao que parece, em Rilke:
Peço que você tenha paciência com tudo que não está resolvido em seu coração e tente amar as perguntas por si mesmas, como se fossem cômodos trancados ou livros escritos em línguas de terras longínquas. Não busque as respostas, que não poderiam ser dadas agora, pois você não saberia vivê–las. E o importante é viver tudo. Viva agora as perguntas. Talvez algum dia em um futuro distante você aos poucos, sem nem notar, viva seu caminho para dentro da resposta.
Traduções nossas do texto em inglês via Brain Pickings.

29 de mai de 2012

Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo**



Não precisa dar opinião
Al Pittampalli*
tradução nossa
Há toneladas de pessoas sem opinião. Pode crer. Apenas eles não as botam no ar na CNN porque seria um programa chato.
Mas como nossa cultura de mídia festeja sem dó os que têm algo a declarar, é fácil se sentir obrigado a ter uma opinião em cada questão, em cada decisão.
Não se sinta. Existem simplesmente questões demais para ser bem informado sobre ou se importar com. E se você não é informado ou não se importa, está mais propenso a visões parciais.
Como diz Daniel Kahneman em seu livro Pensando,  Rápido e Devagar [sem tradução em português], quando nos pedem para responder uma questão complexa sem querer às vezes  acabamos respondendo uma fácil.
Questão complexa a responder: Como deveriam ser punidos consultores financeiros que se aproveitam de idosos?
Questão fácil respondida: Quanta raiva nos dá quando pensamos em predadores financeiros?
Não é a mesma questão, né?
Se você tem uma opinião sobre tudo, pense quantas delas são equivocadas, contribuindo para aumentar o ruído e confundir o debate?
Às vezes, a melhor contribuição que você pode fazer é não fazer nenhuma contribuição.
* Autor do livro “Leia Isto Antes de Nossa Próxima Reunião” [sem tradução em português] e do blog “Um Modelo para Reuniões Modernas” [sem tradução em português], ambos sobre a colossal quantidade de tempo gasto inutilmente em reuniões no mundo corporativo. Um dos mottos do blog/livro: "As Reuniões estão matando seu Negócio. Morte às reuniões!"
** Metamorfose Ambulante - Raul Seixas

22 de mai de 2012

Modern Jesus


imagem de Maximum Chaos

Coisas do mundo hiperlinkado. Lendo O Poder dos Quietos, vi uma citação a LouAnne Johnson, professora vivida por Michelle Pfeiffer no filme Mentes Perigosas. Googlando sobre o curioso nome da cidade dela, Truth and Consequences*, achei esse texto de boas-festas (eu sei, eu sei, ainda é maio...) que traduzo abaixo.

* Nome de uma estância termal no Novo México que existe de verdade e mudou seu nome de Hot Springs para Truth or Consequences (Verdade ou Consequência – Jogo da Verdade), após uma promoção de um programa de auditório americano de mesmo nome, nos anos 50. Algo como se Caldas Novas–GO trocasse seu nome para Caldeirão do Huck.


JotaCê
O Messias Antes Conhecido como Jesus
LouAnne Johnson


Ontem, jogando no banco do carona a pilha de lixo e catálogos que a correspondência de fim de ano trouxe, caiu no chão um envelope branco. Não era um envelope branco qualquer. Esse era um envelope excepcionalmente branco, brilhante demais pra se olhar direto, como o sol da manhã batendo na areia branca. Parecia reluzir com uma aura dourada. Boa jogada de marketing, pensei, mas nem me dei ao trabalho de pegá–lo.
Lembro perfeitamente que larguei o envelope lá no carpete do carro, mas quando cheguei em casa e joguei o resto das cartas na mesa da cozinha, lá estava ele em cima da pilha, brilhando ainda, intocado.
A aba havia descolado, mostrando uma fresta convidativa. Puxei o conteúdo apenas o suficiente para identificar o formato do odioso encarte de ofertas de Natal. Desapontada, varri a carta da mesa ao chão. Peguei a próxima carta da pilha e de repente me vi segurando o mesmo papel que tinha acabado de jogar fora:
Oi, Flor–do–Campo!
Quanto tempo! Sei que você anda ocupada, mas se eu fosse você, faria uma revisão nas prioridades. Só uma sugestão. Tem muita coisa acontecendo por aqui pra entrar nos detalhes sórdidos, mas acho melhor te contar que Papai finalmente vai se aposentar, e se quer saber, já não era sem tempo.

Ele não atende mais preces de ninguém e a memória já era. Num segundo ele está firme, disparando raios e anunciando que vai esmagar uns e outros, e no outro fica choramingando e assoando o nariz na asa, me acusando de roubar seu sanduíche de mortadela.
Já que vou assumir o negócio em breve, pensei que seria legal dar um upgrade no nome, pra atrair a galerinha jovem. Então, tava pensando em JotaCê. Vou lançar meu primeiro CD de sertanejo–universitário–divino agora no Ano Novo. A música de trabalho é “Ai, se tu peca..!” Estou trabalhando também numa grife de jeans – feitos de penas brancas e totalmente irados. Posso te mandar um par se tu pedir com jeitinho e começar a rezar antes de dormir.
Parei e peguei o envelope para ver o remetente. Nada. O selo era impresso direto no envelope – o holograma de uma estrela – mas o carimbo estava ilegível. Só consegui entender “Galáxia 7”. Continuei lendo.
Tio Al vai se aposentar também. Ele diz que cansou de homens-bomba alegando que matam as pessoas em nome dele. “Esses otários doentes não devem nem saber soletrar Alá”, ele diz. “Escrevi pra eles um livro perfeito, curto e doce, só três páginas mandando eles se comportarem e darem sete bodes pra qualquer um que casasse. Mas eles tinham que meter a colher e fazer disso um livro do tamanho de um dicionário. Devia ter registrado o troço.”
 “Isso não é nada”, Papai sempre fala quando Tio Al reclama. “E eu que nem escrevi um livro? Só uma tábua de pedra com dez regras. Qual é o idiota que não consegue guardar dez simples regrinhas? Mas não é? E falei pro Moisés que era só aquilo. Finito. Era pra ser um guia de bolso pra você levar pra todo lado e consultar quando precisasse. Mas até depois do lance do Mar Vermelho, todo mundo se achava mais esperto que ele, só por causa da lingua presa. Ficavam chamando ele de Moitsés. Eu ria de chorar lágrimas brilhantes só de ouvir ele falando...
Enfim, daí pra frente cada Pedro, Paulo ou João tinha que enfiar capítulos e mais capítulos com revelações e revisões da história sagrada. O livro ficou tão grosso que tiveram que inventar o papel-bíblia e mesmo assim pesa uma tonelada. E continuam vendendo direitos de tradução e agora tem a versão do Rei Davi, e a da Rainha Elizabeth e a do Luciano Huck e a do Al Gore. Pessoalmente, eu gosto da do Al Gore, mas quem presta atenção num velho hoje em dia?”
Papai quer comprar um ap num condomínio da Flórida, mas Tio Al  acha muito úmido aquilo lá e prefere um clima de deserto, então eles estão indo para Truth and Consequences, no Novo México. Papai adora esse nome. Ele diz que queria ter inventado alguns nomes maneiros, em vez de Sodoma e Gomorra, que parecem doença venérea.
Bom, você deve estar duvidando que eu tenha mesmo escrito essa carta. Não a culpo. Não é exatamente o método tradicional de comunicação com mortais. O negócio é que o Facebook não reconhece e-mail intergaláctico e eu não consigo achar um servidor de Internet que não dê pau toda vez que tento criar uma lista que inclua todo mundo na Terra. Então, por enquanto, estou reduzido ao método padrão de milagres.
Preciso espalhar a boa nova que estou assumindo o negócio da família e as coisas vão mudar ao redor do seu planeta. Já revisei os mandamentos. À meia-noite do réveillon os Novos e Muito Melhores Dez Mandamentos vão aparecer por milagre em painéis indestrutíveis em cada prédio público, porque separar Igreja e Estado não foi uma ideia tão boa assim. Os politicos acham que não são responsáveis pelo que fazem ou dizem, e o pessoal das igrejas acham que são responsáveis por tudo, inclusive o que não é da conta deles.
Então a nova política celestial é pôr os meus mandamentos na Constituição Federal e aniquilar qualquer um que desobedeça.
Lá vai... TchaRÃ!
OS DEZ NOVOS E MUITO MELHORES MANDAMENTOS
1. Não ganharás mais de 10 mil por mês como padre, pastor, pai-de-santo ou papa. Religião não é show-business, galera. Preguem por amor, não por dinheiro. Amém.
2. Não se preocuparás com quem seu vizinho namora ou casa – homem, mulher ou outro. Papai criou todos para ensinar a vocês tolerância. É preciso mais que um pênis para se fazer um homem.
3. Não prescreverás remédios para que as crianças sentem e fiquem quietas. Crianças não foram feitas para ficar quietas. Escutem elas. Vocês podem até aprender alguma coisa.
4. Não gastarás mais do que 70 mil num veículo a não ser que também compreis um trailer para uma família de sem-teto de sua cidade. Distribuam a riqueza.
5. Olhe-se no espelho todo dia e diga: “Eu te amo” pra você mesmo. Com o tempo, você vai acreditar nisso. Quando você se amar, poderá amar o próximo. Qualquer um. Até os parentes do seu marido.
6. Não assistirás mais que duas horas de televisão por dia, mesmo que seja TV Cultura. Vai brincar lá fora. Pegar um ar fresco. Sua avó tinha razão.
7. Faça o certo porque é certo, não por medo de Mim.
8. Não matarás ninguém, a não ser que abusem de suas crianças. Ponto. Sem exceções.
9. Não coma nada que não saiba pronunciar. O que você não pronuncia, seu corpo não processa. Papai projetou assim. Fique esperto. Coma comida de verdade.
10. Não traduzirás, interpretarás, deformarás ou revisarás estes Mandamentos (ou a Bíblia) para ficarem do seu jeito. Eles dizem o que dizem. Não leia nas entrelinhas.
É isso! Me googla depois do ano novo pra ver se meu site já tá no ar. Queria uma opinião sobre meu cabelo. Tô pensando em partir pra uma nova cor de pele também, pra sacudir um pouco as coisas. A ideia é fazer uma votação por telefone, tipo American Idol, e deixar o povo escolher o próximo Look Divino. E aí mudo o look todo ano, pra galera não enjoar e começar a não me dar ideia.
Com amor,
Jotacê (o Messias Antes Conhecido como Jesus)
P.S.: Outra grande ideia. Sem religiões separadas. Sem Cristianismo, Islã ou Judaísmo. Sem budistas, bruxas ou lobisomens. A experiência de multidenominações não funcionou.
De agora em diante, só há uma religião pro sistema solar de vocês: Os Cuidadores Amigos Responsáveis Afirmativos Humanos – OCARAH. Se você é humano e pensa nessas coisas, tá dentro. Sem batismo, sem catecismo, sem iniciação, sem culto, sem medalha. Só diga “Sou Ocarah” e você faz parte. Tratem os outros com dignidade e respeito, usem os miolos e conversem quando houver divergências em vez de explodir os outros. Boa ideia pra uma igreja, hein? Tô falando, aprendi um bocado com os erros do Papai...
PS 2: Reze! Sei que tu tá sem prática, então se não achar nada pra dizer, tente essa:
“Deito–me pra dormir. Espero que o celular não toque. Se eu morrer antes de acordar, é mais um mané que já vai tarde.”
Sorria! Sei que essa oração não explica o mistério da vida mas pode te fazer rir e esse é meu trabalho – espalhar a alegria. Passe adiante. Parabéns para Mim!
Mas chega de falar de mim. Vamos ver você. Você ainda duvida que esta carta seja minha. Oh, homens de pouca fé... Lembra você no banheiro ontem? Qual o espanto? Você não cantava aquele hino sobre Jesus tomando conta de você? Você tinha razão. Tô de olho. 24 horas por dia, 7 dias por semana.
Tudo bem. Agora que tu se ligou, deixa eu pedir um favor. Sei que eu podia mandar e não pedir, mas é tempo de paz na terra e boa vontade, e essa parada toda. É tipo um presente de aniversário, então se tu não fizer é um manezão mesmo. Seguinte: quero que tu mande dez cópias desse texto pra dez pessoas em 48 horas. E avisa lá que quem quebrar a corrente, vai arder no inferno.
E a pegadinha é que – vai mesmo! Ho ho ho...
Feliz Ano Novo!
JotaCê

16 de mai de 2012

Poesia não é para entender*

Texto da Revista Erráticade Antonio Cícero, sobre a natureza do poema. Muito bom, conquanto de leitura trabalhosa, faz parte de seu mais recente livro, Poesia e Filosofia.
Trechos das conclusões do texto:
  • o fato de que o poema não diz coisa alguma (isto é, não se distingue daquilo que diz) não quer dizer que não contenha palavras com significados usuais, sentenças ou conceitos que digam coisas, mas sim que essas palavras, sentenças e conceitos têm, nele, funções subordinadas à da constituição de um objeto estético;
  • o fato de que o poema não diz coisa alguma não quer dizer que ele não seja produzido pelo pensamento ou que não provoque o pensamento do leitor. O poema solicita todos os recursos do poeta e/ou do leitor: intelecto, sensibilidade, imaginação, intuição, razão, experiência, emoção, humor, vocabulário, conhecimento, abertura para aceitar o que o acaso e o inconsciente oferecem etc.
  • A apreensão estética do poema não é puramente formal, vazia ou indiferente a qualquer conteúdo. A ausência de interesse ao julgarmos genuinamente se algo é belo (Kant) significa que não levamos em conta as vantagens ou desvantagens para nós de tal juízo. Isso, porém, não quer dizer que fiquemos indiferentes a qualquer das possibilidades que nos atravessem, ao contemplá-lo.
  • Livramo-nos do cálculo utilitário ou moral justamente para deixar que a obra, resplandecente, provoque em nós o jogo livre das faculdades cognitivas. É nesse jogo livre, e não na pura apreensão sensível que, segundo Kant, reside o prazer estético.
* "Poesia não é para entender / é para incorporar. / Entender é parede. / Procure ser uma árvore." (Manoel de Barros - Arranjos para assobio)

9 de mai de 2012

Verde-azuis*


Links para textos em inglês.

Para quem já se aborreceu com alguma afirmação do tipo "mas claro que isso é azul! (ou verde!)" há o consolo de saber que o idioma japonês tem a palavra ao, usada a princípio tanto para azul como para verde, e que modernamente define principalmente tons de azul, com midori sendo usada para os verdes (embora as maçãs verdes sejam ao ringo...).

Quando os sinais, semáforos, faróis luminosos de trânsito chegaram ao Japão nos anos 30, a luz de siga foi chamada de ao shingoo, refletindo os usos antigos. O tempo passou, ao ficou restrita ao azul e em 73 os japoneses, em uma tentativa heroica de adequar a realidade à linguagem, tentaram alterar a cor do siga para azul(!), iniciativa frustrada devido às convenções internacionais. A solução foi azular ao máximo a luz verde dos sinais para que correspondessem em alguma medida à palavra ao.
Via Bobulate.

E há um verbete da Wikipedia sobre as diferenças entre verde e azul (e entre azul e preto!) linguagens afora!

Subúrbio, Chico Buarque

8 de mai de 2012

Posto que é chama

A seção Outros Olhares do site de Vinicius de Moraes traz textos de vários autores sobre sua vida e obra, que no caso eram a mesma coisa, como aponta Francisco Bosco em Altas Intensidades.
A parte III do texto trata de tema caro ao autor, o déficit de subjetividade a que estamos todos submetidos na sociedade excitada:

"Os grandes mitos da sociedade hoje são, quase sempre, figuras cuja presença no imaginário das pessoas se deve a um aparato aurático produzido pela repetição infinita de sua imagem nos meios de comunicação de massa. Para além ou aquém dessa aura midiática, pouco resta. Assim, os ícones do espetáculo não se apresentam como referências para experimentações de formas de vida, e a arte [...] não se apresenta, [...] como uma convergência do ético com o estético.
Em um momento como esse, em que experimentações de formas de subjetivação ao nível dos afetos, da produção de relações, são desencorajadas pela sociedade do consumo e do espetáculo, os valores que Vinicius faz circular na cultura [...] tornam-se, mais do que desejáveis, urgentes: o amor, a amizade, a invenção de formas de vida, a exploração corajosa do amplo território da imanência. A vida."

5 de mai de 2012

Música Para Baixinhos

Ouvindo agora há pouco no carro lembrei de recomendar pra quem tem (ou é) criança o disco Par ou Ímpar, de Kleiton e Kledir, um clima meio Palavra Cantada porto-alegrense.
No site dá pra ouvir trechos de canções como Pirulito Esquisito, O Mágico Estrambólico ou Trova do Guri e da Guria.
É, aqui em casa não rola só Exaltasamba, Selena e Justin Bieber não...
Aliás essa da Selena Gomez eu gosto bastante, da música e da mensagem, muito embora.


Samba Atemporal

Durante o período em que Caetano e Gil estavam compondo para o disco Tropicália 2, em comemoração aos 25 anos do original, o primeiro criou Desde que o Samba é Samba, que fala da tradição desse gênero que se tornou uma representação do Brasil e aponta o futuro: "o samba ainda vai nascer, o samba ainda não chegou". A resposta de Gil foi o Baião Atemporal, brincando (?) que se o samba é desde que, o baião sempre foi e será. O par de canções  firma e afirma duas vertentes da canção brasileira do século XX, o urbano e o rural, o Rio e o Nordeste.
Recentemente, a partir de um artigo do compositor e pesquisador Rômulo Fróes sobre Chico, Caetano e os caminhos da canção, muitos espaços virtuais foram ocupados com um debate que mesmo às vezes esbarrando nas tintas de Fla x Flu que Chico e Caetano usualmente despertam, lançou reflexões sobre passado, presente e futuro disso que chamou-se, de forma um pouco infeliz, MPB, é que, abrangendo bem mais, é a tal canção brasileira. No artigo, voltado à parte musical das canções de ambos, Rômulo defende que se Chico Buarque busca sua renovação como artista dentro do universo da composição tradicional (Tom Jobim, Edu Lobo, o próprio Chico), Caetano busca nos timbres a fonte da evolução musical de sua obra.
Ao assistir no Rio, pela segunda vez, o show de Adriana Calcanhotto, lançando a gravação em DVD de seu trabalho O Micróbio do Samba, de repente entendi que, no caso dela, as composições renovam-se e evoluem nas duas abordagens. Os sambas do Micróbio são tradicionais, falam de temas caros ao universo sambista, mas fortemente apoiados na excelência dos músicos (Davi Moraes, Alberto Continentino, Domenico Lancelotti), timbres bastante inesperados, barulhos eletrônicos, levadas e climas inusitados comparecem. O resultado é uma síntese expansionista da tal canção, do Brasil.
O show tem inúmeros momentos memoráveis, como quando Davi empunha a guitarra unicamente para Adriana cantar com  um microfone daqueles de rádio Esses Moços, canção pré-bossa nova do conterrâneo Lupícinio Rodrigues, a quem o disco é dedicado. Ou quando a interpretação de Argumento, de Paulinho da Viola, passeia por sons roqueiros e eletrônicos para retornar na outra parte da melodia a um violão classicamente sambista de Davi. Ou quando Adriana frisa os erres de seu sotaque gaúcho em sambas tão cariocas quanto... ela mesma, que se diz feliz de voltar pra casa.
Claro, nada disso seria possível sem o violão de Davi Moraes, gestado no clima das vibrações de João Gilberto tocando nas madrugadas de Botafogo nos anos 70, no apartamento dos Novos Baianos, e em desenvolvimento infinito pelo seu próprio talento.
Para onde esse violão leva os rumos da canção brasileira?
Vai saber!?

3 de mai de 2012

Retrô



A partir da leitura de um dos livros da série Jamela com minha filha, fiquei conhecendo o estilo musical sul-africano kwaito, a meus ouvidos pouco versados em ritmos dançantes uma espécie de hip hop com uma levada mais suave.

Procura no Youtube, ela gostou do balanço. Procura um pouco mais no dia seguinte, gostei mais de um "old school kwaito", sabe como é, século vinte.

Comentário dela (7 anos, cidadã do terceiro milênio):
- Claro, né? Tinha que gostar mais do antigo...

3 de abr de 2012

Gal canta Caetano

Ia escrever sobre as novas canções de Caetano cantadas por Gal no disco/show Recanto, mas ele mesmo já o fez, e bem melhor.

Conheci-as no show da Gal, o que me pareceu ótimo em relação a ouvi-las primeiro no computador.

O lote de músicas reconciliou totalmente meu gosto com o Caetano compositor de que os recentes Cê e Zii & Zie tinham me afastado um pouco (ainda que tenha gostado sempre da sonoridade e das canções antigas com novos timbres e levadas).

Agora ando assoviando funks santamarenses, Neguinho, Recanto e Segunda na cabeça e absolutamente louco por Mansidão, que é mais (ia dizer convencional, mas preferi) buarquiana para meus ouvidos tão cansados, uma das duas não inéditas e que guarda um parentesco melódico com Sou Você, da trilha de Orfeu (o nome de usuário de quem pôs o vídeo no Ytube é Orfeu1948...), assim uma irmã mais dissonante e igualmente bela.

Ah, Gal cantando como nunca, como sempre...

13 de mar de 2012

8 de mar de 2012

Cores, gêneros (links em inglês)



Já andei lendo sobre como a escolha de cores para roupas de meninos ou meninas é determinada pela cultura de cada época. Há quem discorde


E há quem mostre que em 1927 nos Estados Unidos, as opiniões acerca do rosa/azul menino/menina eram bem divididas, e assunto para pesquisa da revista Time


Na verdade há blogs e livros inteiros sobre o assunto, como sobre quase tudo, aliás, para o bem e para o mal.

Hoje vi esse post que fala do assunto a partir do blog de uma finlandesa vivendo na ArábiaGlobalização é isso aí. 


Ah, o nome do blog, por sinal é blue abaya. Abaya é um tipo de roupa tradicional das mulheres árabes, vejam aqui.

2 de mar de 2012

À mancheia

cartaz de programa de incentivo à leitura
do tempo do New Deal
Tudo bem, ainda que março seja um mês longo (talvez por causa do calor, ou do fim das férias), os livros que  eu sempre quis ler não cabem em 31 29 dias.


Mas é sempre uma boa resolução de Ano-Novo.



1 de mar de 2012

Morre Lucio Dalla

Subiu hoje o compositor e cantor italiano Lucio Dalla, aos 68 anos, após um infarto. 

Dalla era para mim apenas um nome em letra miúdas no selo do LP Construção, de Chico Buarque, naquela galáxia distante do princípio dos anos 70, a identificar o compositor da canção italiana de que Minha História é versão - cujo título original é a data de nascimento de Dalla.

Muitos anos depois adquiri um CD de sucessos de Dalla e passei a admirar demais seu estilo com letras inteligentes e sonoridade calcada nas origens italianas com adição de elementos do rock e do pop. Como tantos de nossos compositores.

Em 79, ele gravou L'Anno che verra (Ano que vem), que, já a partir da primeira frase, Caro Amigo ti scrivo, ecoa o Meu Caro Amigo de Chico e Francis Hime. Em ambas as canções, a novidade é que tudo está na mesma: Aqui na terra tão jogando futebol / L'Anno che sta arrivando tra un anno passerá. No caso da letra de Chico Buarque, a suposta falta de novidades expunha a censura do regime militar. Na canção de Dalla, o clima político conturbado da Itália à época, e o desencanto com os caminhos da midiática sociedade do espetáculo (há mais de 30 anos...).
Link para a letra com tradução, embora mesmo eu com meus três fascículos de curso de idiomas globo de italiano tenha achado trechos duvidosos, mas dá para ter uma ideia.

Outra amostra do canto crítico de Dalla, já traduzida por mim mesmo:

Entretanto os peixes / dos quais descendemos todos / atentos assistiam ao drama coletivo deste mundo / que a eles sem dúvida devia parecer mau / E começaram a pensar / No seu imenso mar / Como é profundo o mar...
E claro que pensar cansa / Mesmo se quem pensa / É mudo como um peixe / Na verdade é um peixe / E, como peixe, difícil de barrar / Porque o protege o mar / Como é profundo o mar...
Óbvio que os que mandam / Não se dispõem a distinções políticas / O pensamento, como o oceano / Não se pode barrar / Não se pode cercar / Assim, estão queimando o mar / Assim, estão matando o mar / Assim, estão humilhando o mar / Assim, estão batendo o mar
Como é profundo o mar...


A roda de violão vai ser boa hoje no andar de cima.


Foi quando um velho levantou-se da cadeira e saiu assoviando uma triste melodia

Gilberto Gil sobre música e etc. Trecho:

Ah, sim, meter o pé no freio, desacelerar. Um pouco. Eu tenho a impressão de que é a tendência. Agora, de novo, a velha história. Fica aquela questão que os ecologistas trouxeram de forma muito pertinente nos últimos tempos: "Vai dar tempo?". Essa é a grande questão. Não estaríamos já tão acelerados que não teríamos mais condições de pisar o pé no freio sem capotar? Essa é uma pergunta que eu cada vez me faço mais. Os adeptos do conservadorismo produtivista, industrialista, etc., tentam encobrir, mas as especulações que a ciência vem fazendo na moita, em relação a essa questão global, do ponto de vista ecológico, mostram que tanto do ponto de vista ecológico, como do ponto de vista sociológico, econômico, nós estamos numa...
Encruzilhada?

Não, a gente tá numa enrascada! Na encruzilhada, você diz: eu ainda vou pro lado ou pro outro, estou andando! Na enrascada você está meio preso, numa travada braba, acelerou tanto, ia tão picado que não viu a encruzilhada! (risos) Vai ter que voltar atrás.


Entrevista em duas partes. 
Gostei mais da segunda, que fala mais de música.
Quem quiser, lá tem um link pra primeira.

Que canção de Gil pôr aqui?
A primeira que veio na cabeça.