5 de mai de 2012

Samba Atemporal

Durante o período em que Caetano e Gil estavam compondo para o disco Tropicália 2, em comemoração aos 25 anos do original, o primeiro criou Desde que o Samba é Samba, que fala da tradição desse gênero que se tornou uma representação do Brasil e aponta o futuro: "o samba ainda vai nascer, o samba ainda não chegou". A resposta de Gil foi o Baião Atemporal, brincando (?) que se o samba é desde que, o baião sempre foi e será. O par de canções  firma e afirma duas vertentes da canção brasileira do século XX, o urbano e o rural, o Rio e o Nordeste.
Recentemente, a partir de um artigo do compositor e pesquisador Rômulo Fróes sobre Chico, Caetano e os caminhos da canção, muitos espaços virtuais foram ocupados com um debate que mesmo às vezes esbarrando nas tintas de Fla x Flu que Chico e Caetano usualmente despertam, lançou reflexões sobre passado, presente e futuro disso que chamou-se, de forma um pouco infeliz, MPB, é que, abrangendo bem mais, é a tal canção brasileira. No artigo, voltado à parte musical das canções de ambos, Rômulo defende que se Chico Buarque busca sua renovação como artista dentro do universo da composição tradicional (Tom Jobim, Edu Lobo, o próprio Chico), Caetano busca nos timbres a fonte da evolução musical de sua obra.
Ao assistir no Rio, pela segunda vez, o show de Adriana Calcanhotto, lançando a gravação em DVD de seu trabalho O Micróbio do Samba, de repente entendi que, no caso dela, as composições renovam-se e evoluem nas duas abordagens. Os sambas do Micróbio são tradicionais, falam de temas caros ao universo sambista, mas fortemente apoiados na excelência dos músicos (Davi Moraes, Alberto Continentino, Domenico Lancelotti), timbres bastante inesperados, barulhos eletrônicos, levadas e climas inusitados comparecem. O resultado é uma síntese expansionista da tal canção, do Brasil.
O show tem inúmeros momentos memoráveis, como quando Davi empunha a guitarra unicamente para Adriana cantar com  um microfone daqueles de rádio Esses Moços, canção pré-bossa nova do conterrâneo Lupícinio Rodrigues, a quem o disco é dedicado. Ou quando a interpretação de Argumento, de Paulinho da Viola, passeia por sons roqueiros e eletrônicos para retornar na outra parte da melodia a um violão classicamente sambista de Davi. Ou quando Adriana frisa os erres de seu sotaque gaúcho em sambas tão cariocas quanto... ela mesma, que se diz feliz de voltar pra casa.
Claro, nada disso seria possível sem o violão de Davi Moraes, gestado no clima das vibrações de João Gilberto tocando nas madrugadas de Botafogo nos anos 70, no apartamento dos Novos Baianos, e em desenvolvimento infinito pelo seu próprio talento.
Para onde esse violão leva os rumos da canção brasileira?
Vai saber!?

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