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18 de jan. de 2012

Mais Bonita Ainda

De modo geral, gosto mais das interpretações dos compositores de suas próprias músicas, por ser um registro mais próximo da concepção original, que nos revela sentidos e nuances pretendidos.

Como toda generalização, há inúmeras exceções, e mesmo no caso de um compositor como Chico Buarque, cujas canções costumam ser mais na própria voz, as interpretações de Maria Bethânia são uma experiência à parte, como a clássica Olhos nos Olhos. Pena, pena mesmo que o recente show de Bethânia cantando Chico não veio ao Rio.

Outro caso é A Mais Bonita (Chico escolheu o título pra implicar com Tom Jobim, que compusera Bonita), de que há uma gravação de Chico e sua sobrinha Bebel Gilberto em um disco de Chico de 91 bastante esquecido, embora contenha preciosidades como Valsa Brasileira, única canção a estar presente em todos os shows de Chico desde então, sempre com a  mesma luz inspirada na original de Ney Matogrosso para a turnê de Paratodos. Além de A Permuta dos Santos, o Futebol... mas a lista é imensa...

Na letra da canção, composta para a peça Suburbano Coração, o cenário exposto em trechos como "na casa de espelhos espalho meus rostos e finjo que finjo que finjo que não sei" nos permite supôr que Chico quis inverter a etimologia do verbo revelar ("Eu preciso me mostrar / Bonita / Pra que os olhos do meu bem / Não olhem mais ninguém / Quando eu me revelar / Da forma mais bonita") e usando o prefixo re não no sentido de contrário (replicar, rebater), para dizer desvelar, tirar o véu, mas sim no sentido de repetição (reafirmar, repetir), para dizer esconder o escondido, fingir que finge que finge...

Ou será que só eu escuto essas coisas, depois de cantar oitocentas vezes a música?

15 de jan. de 2012

Chico disco a disco

Cassia, do Musiqueria, está no segundo post em seu desafio de publicar videos de todos os discos de Chico Buarque. Sorte nossa.

Por minha vez, a música do Chico com que acordei hoje na cabeça (tem sempre uma...) foi A Ostra e o Vento, do filme,
aqui na versão de Ná Ozetti e André Mehmari,





cuja melodia originou-se de um tema com que Chico embalava o neto Chiquinho (vai, Chiquinho, vem, etc).

Já a letra tem requintes e quitutes vários:
  • rimas no início dos versos (li uma vez num lugar que não vou googlar que isso é coisa de Rimbaud, corrijam-me aí): cai/vai/raia/pai/paisagem/paira  - vem/tem/meu bem
  • delicadas rimas assonantes (?), das que ele vem cultivando cada vez mais nos últimos discos - ralha/folha, nome/perfume, caramujo/estojo, peixe/mexe
  • uma frase que parece tirada de um livro de García Márquez (ou de Chico Buarque):  "Jogada num quintal, enxuta, a concha guarda o mar no seu estojo"
  • inversão de sonoridade criando aliterações (ou algo assim): conceda/descansar. Exemplo em O Velho Francisco, entre duas estrofes: cobertor comida roupa lavada/tive terra arado cavalo e brida. Ou será que só eu escuto essas coisas, depois de cantar oitocentas vezes a música?